Ilustração por Otoniel Oliveira (@otoniel_oliveira)
Além da Melancolia do Fim
Pela janela de seu castelo, o rei observava os fogos-fadas iluminarem o céu noturno. Mais um ano havia chegado ao fim.
“Finalmente”, pensou.
Um pensamento carregado por uma melancolia habitual, sempre inebriando sua mente com sombras. Não lidava bem com os fins, e talvez nem com os começos.
Mas não fora um ano fácil. Planos desmoronaram como muros de barro, missões fracassaram, alianças se romperam. Ao olhar para trás, via um vazio onde deveriam estar os tesouros conquistados. Nenhuma meta cumprida.
Seu reflexo no fundo do cálice lhe revelava um rosto mais envelhecido, marcado por rugas, cicatrizes e pela exaustão de tantas jornadas. Cansado de lutar contra forças invisíveis, de enfrentar monstros e tempestades que pareciam sempre vencê-lo.
Se virou para observar o salão ao seu redor. Nobres, mercadores e aventureiros trocavam abraços e desejos por tempos melhores. Alguns sussurravam orações para o Vazio, outros mastigavam uvas, selando pactos silenciosos com os deuses. Lá fora, conseguia imaginar os aldeões na praia, pulando ondas sob o luar e estourando garrafas de espumantes, apenas para guardar as rolhas.
Havia algo mágico no ar. A promessa de renovação, os ventos que traziam oportunidades. Novas chances de conquistar o inalcançável.
“Por que não?”, se perguntou.
Tornou a olhar para o fundo do cálice e enxergou algo diferente. O reflexo não era apenas de um homem cansado, mas de alguém que sobrevivera. Alguém que, apesar das troças do destino — e como o destino podia ser cruel! —, estava ali. Em pé. Um ano mais forte. Um rei que ousou desafiar o desconhecido, mesmo sem garantias de vitória.
Ele sorriu de leve.
“Vai ser melhor”, prometeu a si mesmo. “Dessa vez vai ser melhor.”
Ergueu o cálice e, com a voz firme como um golpe de seu lendário martelo, gritou para todos os que tivessem ouvidos para escutar:
— Feliz Ano Novo, amigos!
E ali, enquanto o eco de sua voz se misturava às risadas, aos gritos e ao tilintar dos copos nos brindes, ele acreditou. Despediu-se de toda a amargura. Afinal, todo dia era um presente, e mesmo que os presentes fossem as meias mais feias que ele podia receber, ainda assim eram presentes.
✍️ Conto por: Vinícius Nunes (@shadowvini)
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