Na derradeira dos anos 2000, cá estava eu a estudar na escola a respeito do movimento antropofágico — sobre artistas brasileiros se alimentando da produção europeia a fim de digerir até chegar em algo com a nossa cara — e, numa rebeldia juvenil, questionei os resultados antiquados. Nem mesmo em 1922 aqueles desenhos e textos rebuscados tinham a intenção de ser consumidos por gente comum, de fora das universidades.

Eu não defendo Monteiro Lobato, tá?! Por favor, há limites!
Não que eu entendesse alguma coisa de arte, mas me sentia bastante inteligente por pensar que conhecia e consumia o que era a verdadeira arte feita por nós e para nós: eu lia fanfics! 👁️👄👁️💅
Por mais tosco que soe a comparação, ler fanfics ajudou a moldar minha percepção de arte e consumo. A verdadeira antropofagia ocorria ao tomar para si qualquer produto cultural — livros, filmes, séries e celebridades — e moldá-lo ao nosso gosto. Essa criatividade era validada por outras pessoas que também ultrapassavam a posição de meros consumidores e compartilhavam suas opiniões a respeito da obra. Saímos da plateia e subimos todos no palco da internet, numa bagunça divertidíssima em que discutíamos como se aquela arte também fosse nossa.
Sei que parece que estou levando a sério demais o texto de gente que usa hífen no lugar do travessão, em que uma garota diferente faz uma viagem e conhece o vocalista da sua banda preferida, que usa um coque frouxo, tropeça na entrevista de emprego e encontra o CEO no elevador — sim, pessoal do dark romance, isso aí veio do mundo das fanfics —, mas é importante reconhecer como produções de fãs alcançam públicos consumidores geralmente subjugados. Numa era de falência de livrarias e de um aparente desinteresse por livros, são justamente em sites de fanfics que jovens tomam gosto pela leitura.

Mario de Andrade certamente escreveria fanfics gays num perfil fake nos dias de hoje 👀
Aqui caberiam dados e artigos, tenho certeza que tais fontes podem ser facilmente encontradas, mas vou me ater à minha rebeldia juvenil e continuar com minhas experiências pessoais. Eu escrevo fanfics — Oh, sério? — no universo de Wandinha (que você pode ler aqui, caso queira) e, apesar de estarem concluídas há dois anos, bastou que a segunda temporada fosse lançada para que os leitores voltassem. Atingir 10 mil visualizações numa história, sem qualquer divulgação pessoal, ocorre porque, sim, há quem queira ler — o fandom, claro — e são as fanfics que atendem esse desejo de continuar consumindo um produto cultural do qual já se é fã.

As variações de tags para casais de fanfics é, por si só, uma forma de arte.
Preciso ser honesta e apontar que não é novidade esse formato de produções feitas por fãs. Já havia fanzines, adaptações e uma infinidade de publicações não autorizadas feitas por fãs. Se forçar o conceito, mesmo contos mitológicos em dramaturgias são fanfics adaptadas aos meios de comunicação da época. Shakespeare se aproveitou de várias delas. Em relação a essas obras, eu diria que o que há de especial nas fanfics seja como a internet facilita a aglomeração de pessoas a partir de puros interesses em comum. Não duvido da existência de um fandom de Júlio César, mas não eram eles a lotarem as encenações do fanfiqueiro William. Hoje, porém, temos gente o suficiente para consumir e contribuir com produtos culturais que nos agradam a ponto de mesmo os não oficiais passarem a ser enxergados como arte pelo pessoal acadêmico — e, quando arte dá dinheiro, é, finalmente, levada a sério.

Se Abaporu é o termo em tupi para antropofagia, seria Willian um símbolo para comer obras alheias?
Temos tanta gente consumindo e escrevendo que as versões começam a integrar um emaranhado de fanfics de fanfics: Um poeta escreve sobre o imprudente amor juvenil, um dramaturgo a adapta para um roteiro de teatro sobre o drama de dois enamorados encerrando em tragédia e, séculos depois, uma fanfiqueira modifica o final criando uma versão vampiresca para o destino de Romeu e Julieta. E esse desencadeamento de eventos me traz aqui, já que a Editora Fantástica é o lar de O beijo da meia-noite, uma fanfic de fantasia que escrevi no fandom shakespeariano e foi publicada no Vale Fantástico Vol. 2023.
Talvez essa seja a verdadeira antropofagia, a arte alimentando a criatividade de novas gerações, criando leitores, fortalecendo a disseminação de cultura e o gosto pela imaginação… E você aí pensando que fanfic era apenas 50 tons de Cinza e Senhor dos Anéis — claramente uma fanfic da mitologia celta e cristã —, mas talvez seja só isso mesmo e está tudo bem.

Sobre o autor
Tendo a matemática como profissão desde 2020, escrever é sua válvula de escape. Aos 27 anos, Anna Toledo publica ficção especulativa no tempo livre da sala de aula e promove seus hobbies às próximas gerações. Mestre em matemática pura e em D&D, a procura do equilíbrio entre o trabalho, família e lazer.
Acompanhe-a no Instagram: @nana.blueside.
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